sexta-feira, 5 de outubro de 2012

O fantástico Mistério de Feiurinha - Pedro Bandeira

FEIURINHA
Era uma vez, há muitos, muitos anos atrás, uma menina muito linda que acabara de nascer numa casa muito pobre, mas cheia de amor e felicidade.
Seu papai e sua mamãe não tinham ainda escolhido um nominho para ela e ainda estavam discutindo que nome iriam dar, quando ouviram batidas na porta.
Pensando que eram visitas para o bebê, o pai abriu a porta. Não viu, porém, nenhum conhecido da aldeia. O que viu foram três mulheres muito feias e muito mal vestidas que pediram para entrar e conhecer a menina.
Inocentemente, o bom homem deixou as três entrarem. Só que elas eram três bruxas malvadíssimas, Ruim, Malvada e Piorainda, que paralisaram o pai e a mãe da menina com uma praga de bruxaria. Os dois ficaram imóveis como estátuas e, quando passou o efeito da praga, o bebê tinha desaparecido!
Coitados dos pais da menina! Choraram, procuraram, e continuaram a chorar e a procurar até não haver mais pista a seguir e até não haver mais lágrimas a derramar.
Mas ninguém poderia encontrar a filha deles. Ruim, Malvada e Piorainda tinham raptado a menina e levado para muito longe, onde nem gente ou bicho teria coragem de ir. A menina seria criada junto com a sobrinha delas, a quem chamavam Belezinha e que era o bebê mais feio do mundo, pois já havia nascido birolha, caspenta, com dente cariado e verruga no nariz.
Assim, a menina foi parar na casa das bruxas, um lugar em ruínas, uma choupana sórdida e lúgubre, longe de tudo e de todos, onde a pobrezinha cresceu junto às corujas, aos ratos e aos morcegos.
Como ela nunca tinha visto outro mundo, nem mais feio e nem mais bonito, ela não sentia medo. Aquilo era tudo que ela conhecia, era o seu mundo e ela estava acostumada com todas aquelas barbaridades.
Só não era possível acostumar-se com as três bruxas. Como seus nomes, Ruim, Malvada e Piorainda eram umas pestes. Logo que a menina cresceu, deixaram todo o trabalho da velha casa para ela. Mas a menina não se queixava disso. A única coisa que ela fazia com que seus dias fossem tristíssimos e as noites cheias de lágrimas, era sua própria feiúra.
Era. Era a coisa mais linda que já tinha nascido e se tornara a mais linda jovem que qualquer mortal já viu. Mas ela não sabia disso. Só o que ela sabia era o que as bruxas lhe contavam:
__ Ihhh! Você devia se envergonhar! comentava Ruim.
__ É isso mesmo – acrescentava Malvada. __ Nunca vi garota tão feia!
__ Você é um horror! –completava Piorainda.
E punham-se a pular, a dar voltas em torno da menina, a cutuca-la, a dar-lhe beliscões, a puxar-lhe os cabelos.
__ Veja –só os seus dentes! __ Provocava Ruim.__ Todos iguazinhos, brancos, enfileiradinhos como idiotas!
__ Coisa Horrorosa! __ concordava Malvada.
__ Não são como os nossos, que é único, escuro e cariado! __ explicava Piorainda.
A menina chorava, tentava desvencilhar-se, envergonhada, mas as bruxas insistiam:
__ E os seus cabelos então? Louros e macios! Parecem uma seda nojenta! __ continuava Ruim.
__ Coisa horrorosa! __ apoiava Malvada.
__ Agora veja os nossos cabelos! Completava Piorainda. __ Isso é que é coisa linda. São Grossos, sujos, espetados e cheios de caspa!
__ E piolhos! __acrescentava a bruxa Ruim __ Não esqueça dos piolhos!
__ E esse nariz? Retinho, é pequeno e delicado!
__ Coisa horrorosa!
__ Os nossos sim, que são lindos! Veja só: enormes, curvos, enrugados, que chegam até quase o queixo!
__ É isso: você é mesmo um horror!
__ Uma vergonha! Uma feiúra!
__ Feiurinha! Feiurinha!
Pois é. Esse era o nome que as bruxas tinham dado para uma menina linda daquele jeito: Feiurinha! Ela, coitada, cresceu com aquele nome, e sua vergonha creseu mais ainda.
Vivia infeliz, mas sua infelicidade até que seria quase suportável se não fosse a Belezinha e a questão da verruga.
Belezinha crescera uma bruxinha tremenda de ruindade, que não perdia ocasião de atormentar a vida de feiurinha.
A horrorosa da Belezinha não cansava. Entornava o caldeirão quando a comida estava quase pronta, obrigando Feiurinha a cozinhar tudo de novo, enchia o colchão da menina com espinhos, e nunca esquecia de falar da verruga.
Ah, a verruga! Era a razão maior do complexo de feiúra da Feiurinha. A bruxinha e as três bruxas madrastas tinham lindas verrugas cabeludas na ponta do nariz e até no queixo, enquanto ela... Coitadinha! Não tinha uma só pinta na pele!
Feiurinha vivia desesperada, e até já tinha pensado em fugir. Só não fugia porque se lembrava muito bem do que tinham dito as três bruxas malvadas: beleza só havia ali, naquela casa. Fora dela, a menina encontraria horrores e feiúras como ela mesma.
Os poucos momentos em que Feiurinha tinha paz era quando as bruxas saíam para suas maldades e a deixavam com o Bode.
O Bode era seu único amigo. Um bode velho, com os pelos sujos, cheio de pulgas e piolhos, lindo e fedido como as bruxas. Mas era um amigo, que acompanhava Feiurinha por todo lado, como um cão fiel.
Certo dia, as quatro foram embora depois de terem espezinhado especialmente a pobre Feiurinha, deixando-a só com o Bode e muitas tarefas domésticas a realizar.
Arrasada, tristíssima com a própria feiúra, a mocinha pegou um cântaro de barro e foi chorando no caminho até o rio, buscar água, sempre com o velho Bode atrás.
Ajoelhou-se à beira do riacho de águas calmas, e viu refletida sua imagem horrorosa, seus longos cabelos louros, cheirando alfazema, sua pele rosada, seus olhos se um azul profundo.
Ao lado da feiurinha, estava o Bode, o único que parecia gostar dela, o único que não a maltratava.
__ Ai, amigo Bode, com eu sou infeliz! Belezinha e minhas madrastas até que têm razão de brigar tanto comigo. Para elas, deve ser furo morar a vida inteira com um ser tão feio, tão horroroso e repugnante como eu!
O Bose continuou olhando para Feiurinha, mas seu olhar amigo não era um consolo.
__ Se ao menos eu tivesse uma verruga! Uma verruguinha só, para mostrar a elas que eu não sou tão feia assim...
Feiurinha, mirando-se no rio, começou a procurar atentamente em todo o rosto. Depois pesquisou os braços, as mãos, os pés e as pernas. Nada!
__ Quem sabe não nasceu alguma verruguinha em alguma parte?
Tirou a saia e continuou procurando. As anáguas, o corpete, até mirar-se nuazinha nas águas do rio.
Nesse instante __puf! __, uma nuvem azul envolveu o Bode. Feiurinha Assustou-se:
__ O que é isso?
De dentro da nuvem, surgiu o mais horroroso dos jovens. Feíssimo! Alto, forte, musculoso, cheio de dentes brancos na boca, de olhos verdes e penetrantes como a luz do amanhecer. Nem ao menos era birolho como Piorainda!
Assustada com tanta horripilância, Feiurinha tentou fugir, mas o braço forte do rapaz enlaçou-a pala cintura:
__ Por favor, não fuja, Feiurinha! Eu passei esses anos todos ao seu lado, sonhando com esse momento. Eu sou um Príncipe encantado que foi transformado em bode pelas três bruxas. Sua beleza me libertou da maldição!
__ Beleza? Mas eu sou horrorosa!
__ Você é o anjo mais lindo da Terra, Feiurinha! Eu assisti, esses anos todos, à crueldade dessas bruxas que a enganaram fazendo-a pensar que o feio é bonito e o bonito é o feio. Elas sim são um horror. Eu vou mostrar-lhe a verdade. Você vai ver que o mundo todo cairá de joelhos frente à sua beleza!
__ Você... tem certeza?
__ Você vai ver, Feiurinha. Espere-me. Vou voltar ao meu reino para retomar todas as posses e a fortuna a que tenho direito. Logo virei busca-la. Espere por mim! Vamos nos casar, e seremos felizes para sempre, para sempre! Para sempre!
Feiurinha viu partir aquele jovem, e ficou sentindo o calor de suas palavras, que lhe haviam enchido o coração de um sentimento, de uma paz, de uma confiança que ela nunca havia conhecido antes.
__ Para sempre, meu Príncipe... __ murmurou, sorrindo pela primeira vez na vida.
Naquela noite ao servir o jantar, Feiurinha parecia nem ouvir as provocações das bruxas. Só tinha pensamentos para seu príncipe, e não havia gozação de bruxa que a fizesse pensar em outra coisa.
A danada da Belezinha tentou de tudo. Quando não havia mais nada para tentar, jogou a última cartada: falou da verruga. Mas tudo que conseguiu da Feiurinha foi um sorriso.
Um sorriso! Nunca tinham visto uma coisa daquelas. O que estaria acontecendo?
A Bruxa Ruim olhou em volta, à procura do Bode, e foi a primeira a compreender. Depois foi a Malvada, depois a Piorainda. Quando, finalmente, chegou a vez da bruxinha Belezinha, as quatro se entreolharam e seus olhares foram o suficiente para que um plano diabólico ficasse combinado entre elas.
__ Onde está o Bode, Feiurinha? __ perguntou calmamente a bruxa Ruim.
O coração da menina deu um salto.
__ O Bode? Não sei...
__ Não sabe?__ foi o sorriso macabro de Malvada.__ Eu acho que sabe sim...
__ Eu acho que você desenfeitiçou o Bode... __ brincou Piorainda exibindo a banguela.
Feiurinha recuou, olhando assustada de bruxa em bruxa. Estava apavorada, sem saber o que fariam as quatro. Belezinha aproximou-se amigavelmente.
__ Ora, Feiurinha, não tenha medo. Nós sabemos que você desenfeitiçou o Bode, e era isso que queríamos!
__ Como? __ perguntou a menina, timidamente, surpresa.
__ É isso mesmo __ reforçou Malvada. __ Nós esperávamos, esse tempo todo, que você salvasse o Príncipe...
__ Nós queríamos que você salvasse o Príncipe! __ afirmou Piorainda.
Feiurinha estava confusa. Sorriu sem jeito, tentando entender melhor.
__ Então porque não me disseram antes?
__ Porque não podíamos __ Respondeu Ruim. __ Se contássemos, o seu poder de desencantar bodes perderia o efeito...
__ Mas o9 Príncipe disse que vocês mesma que o enfeitiçaram!
__ Ele... disse isso? __ hesitou Malvada. __ O que foi que ele disse?
__ Ele disse que foi transformado em bode pelas três bruxas...
Piorainda pareceu aliviada:
__ Então, Feiurinha, não fomos nós. Ele disse três bruxas. E nós não somos bruxas. Nós somos... somos...
__ Fadas! __ ajudou Ruim. __ Nós somos ... erh... fadas!
__ Isso! Somos Fadas! __ apoiou Belezinha.
AS bruxas conseguiram enganar Feiurinha mais uma vez. A mocinha era ingênua, não conhecia nada e era muito fácil de convencer.
__ Que bom! Então vocês vão ficar muito felizes em saber que o Príncipe prometeu casar comigo. Foi recuperar o o reino dele e volta já, já pra me levar com ele!
__ Mas que maravilha! __ exclamou falsamente Malvada. __ Então precisamos preparar você para o casamento. Piorainda! Vá buscar a pele de urso!
__ Pele de urso?
Piorainda foi e voltou trazendo uma pele de urso castanha e mal cheirosa.
__ Aqui está, querida Feiurinha. __ ofereceu Malvada. __ Este é o nosso presente de casamento. Quem vestir esta pele de urso será linda para sempre e feliz por toda a eternidade!
__ Obrigada __ agradeceu Feiurinha. __ Vocês são bondosas... Não precisavam se incomodar!
__ Incomodo nenhum, queridinha __ afirmou Pìorainda. __ É nossa obrigação.
__ Vamos, vista! __ propôs Belezinha.
Iludida pela lábia das Bruxas, Feiurinha colocou a pele mde urso sobre os ombros. No mesmo instante __ outro puf! __ uma nuvem cinzenta envolveu a menina. Quando se dissipou, Feiurinha estava transformada numa bruxa tão horrorosa quanto as quatro ruindades que a haviam enganado!
__ Socorro! O que aconteceu comigo? __ gritou a menina< tentando arrancar a pele de urso.
As quatro bruxas dançaram e cantaram de felicidade em volta da nova companheira:
__ Ah!Ah! Agora você é uma de nós!
__ Essa pele de urso é o feitiço mais poderoso da Terra. Torna velha uma mulher jovem e feia se ela for bonita!
__ Pensou que podia fugir da gente? Ah,ah! Fuja agora!
__ E não adianta tentar tirar a pele de urso. É um feitiço fortíssimo que só pode ser desatado por uma certa espada de prata!
__ Onde estão os seus dentes branco9s Feiurinha?
__ Cadê seus cabelos de seda?
__ E os seus olhos de água?
__ Agora você já tem verrugas! Ah! Ah!
__ Não está contente, Feiurinha? Vamos, dance com a gente!
­­__Agora somos cinco! Ah, ah!
A nova Bruxa só era bruxa por fora. Por dentro, continuava sendo a mesma menina, linda e inocente. Tentou chorar, mas as lágrimas não saiam de seus olhos de bruxa. Enterrou a cabeça nas sua mãos horrorosas e tentou tapar os ouvidos para escapar da louca festa das bruxas.
Mas... um ruído de galope de cavalo chamou a atenção de todas elas. Correram para fora da casa e lá estava o Príncipe Encantado com sua comitiva real.
De cima do cavalo branco, o Príncipe estava ainda mais lindo, agora vestido de ouro e prata, como deve vestir-se um príncipe.
__ Suas bruxas malvadas! __berrou ele. __ Onde está Feiurinha?
A menina transformada em bruxa correu para ele.
__ Sou eu, meu amor! Essas malvadas me transformaram em bruxa! Salve-me!
No mesmo instante Belezinha caiu de joelhos>
__ Não acredite nela, meu querido! Feiurinha sou eu. Eu é que fui enfeitiçada!
Malvada correu e agarrou as rédeas do cavalo branco.
__ Não! Sou eu a Feiurinha! Não acredite em mentiras. Case comigo!
Saí foi vez da bruxa Ruim.
__ Todas elas mentem, meu Príncipe! Eu sou Feiurinha! Você tem que casar comigo!
__ Feiurinha sou eu! __ gritou Piorainda. __ Sou eu! Fui enfeitiçada para engana-lo. Case-se comigo! Você prometeu!
O Príncipe desembainhou sua espada de prata. Estava colérico disposto a tudo.
__ Suas ruindades! Que fizeram com minha amada? Só uma de vocês está dizendo a verdade. Todas as outras mentem. Quando eu descobrir quem são, juro que vou cortar a cabeça de todas com esta espada!
__ Isso mesmo! Concordou Piorainda. __ Case-se comigo e mate as outras!
Não! Comigo! Berrou Belezinha.
__ È comigo que ele vai se casar! Esgoelou-se Malvada.
__ Comigo! Que morram as outras! Gritou Ruim.
Nesse momento, a bruxa que havia sido Feiurinha ajoelhou-se e abraçou-se ao pé do cavaleiro.
__ Não, meu amor, não faça isso! Elas são malvadas, mas me criaram desde pequenininha. Me judiaram e me fizeram trabalhar demais, mas eu não quero mal a elas. Pelo meu amor, poupe a vida delas!
O Príncipe Encantado sorriu. Desceu do cavalo e abraçou a bruxinha.
__ Meu amor! Só você pode ser Feiurinha! Só uma menina maravilhosa como Feiurinha poderia ser tão generosa! O que essas malvadas fizeram com você?
__ Elas me fizeram vestir esta pele de urso. ~E um feitiço que me transformou em bruxa. Só pode ser desatado por uma certa ESPADA DE PRATA...
__ Então que essa espada de prata seja a minha espada! __ decidiu o Príncipe, cortando a pele de urso com um golpe certeiro de sua espada.
Um trovão estourou os céus e, no lugar da bruxa repelente, a linda imagem de Feiurinha voltou a encantar os olhos do Príncipe.
O trovão foi seguido por um relâmpago, que soltou quatro raios sobre as quatro bruxas. Em meio a uma nuvem amarela e ao cheiro de enxofre e gases de cadáveres...
__ Aaaaah ...
...as quatro bruxas malvadas transformaram-se em quatro cogumelos venenosos!
Feiurinha foi levada para o Reino Encantado do Príncipe e encontrou seus verdadeiros pais, que já estavam velhinhos mas não tinham perdido a esperança de reencontrar a filha.
A festa de casamento foi a maior que se tem notícia e durou três dias e três noites. Assim, com a multidão gritando, com as trombetas trombeteando, Feiurinha casou-se com o Príncipe Encantado e eles viveram...
 

Um comentário:

  1. Devia fazer um filme há anos que quero vê um filme da feurinha em desenho ou ate mesmo um filme de pessoas, só existir o filme da feirinha que a filha da Xuxa fez queu não gostei,queria tanto asistir este filme , podiam fazer eu seria a primeira asistir.

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