segunda-feira, 31 de outubro de 2011

31/10 o dia de Carlos Drummont de Andrade



AUSÊNCIA
Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.

MEMÓRIA
Amar o perdido
deixa confundido
este coração.

Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do Não.

As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão

Mas as coisas findas
muito mais que lindas,
essas ficarão.


NO MEIO DO CAMINHO
No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.

Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Pablo Neruda....na AACD

Ontem estive contando histórias na AACD e a cada dia uma nova experiência e aprendizado. Força, peristência e alegria... é isso que encontro lá, verdadeiros sinônimos de superação...
Comecei com um livro que ganhei em doação: Quem soltou o PUM? Blandina Franco e José Carlos Lollo, que diverte crianças e adultos.
Um pum pode ser problemático na vida de uma pessoa. É um tal de PUM escapar, fazer barulho, atrapalhar os adultos e ficar fedido... ai logo alguém pergunta:
- Quem foi que soltou o PUM de novo??
E é lógico que a culpa é sempre do irmão mais novo... coitado.
Mas eu ainda é que pergunto:
- Quem foi que soltou o PUM? Você solta PUM?
Quer saber mais??? Pergunte ao Otávio que novamente tive o prazer de encontrar. Criança doce, meiga, inteligente e interessada. Ele ouve atentamente e me apressa.
- Conta rápido, anda... só tenho 4 minutos até entrar na fisioterapia... rápido!
Ufa! Ordem é ordem. Eu acatei e corri. No final ele teve que adivinhar quem foi que soltou o PUM, o legal que ele me disse:
- Agora eu posso contar para uma criança?
- Claro que sim, vamos então procurar um amigo para te ouvir.
Empurrei sua cadeira de rodas até o Vitor (um fofo) com grande dificuldade de concentração e déficit de atenção. E meu pequeno aprendiz fez como eu faço.
- Oi, posso te contar uma história?
E assim ele começou a ler com toda a sua dificuldade de fala e intenso esforço ... até que a fisio o chamou e ele logo me disse:
- Continua contando pra ele de onde eu parei.
Claro que eu continuei e outras histórias vieram fazer histórias.
Simples assim. Lindo assim.


Mas agora, um pouquinho de Neruda escrito em um corredor na AACD.

"Seja incansávelmente otimista, faz bem para o corpo, para a mente e para a alma. É humano e natural viver aflições, só não é inteligente conviver com elas por muito tempo.
Seja mais paciente consigo mesmo, saiba entender suas limitações.
Sem esforço não existe vitória."

sábado, 15 de outubro de 2011

Uma falsa princesa para um príncipe apaixonado -Texto de Riba Tavares - Site da Xuxa

Era uma vez, um príncipe muito solitário. Seu nome era Marcolino. Ele passava horas comendo biscoitos, pois no castelo, para ele, era o mais interessante a se fazer, pois fora isso não havia mais nada. Não tinha tv, ou bola, ou games, nem livros, nem pescaria, nem nada. Ah, que chato! Imagine que chato você não poder jogar bola, nem ler deliciosos livros, nem jogar seus games favoritos, nem assistir novelas ou filmes...
            Por não fazer nada o dia todo, a solidão de Marcolino aumentava a cada dia, pois até então não tinha encontrado alguém que tocasse seu coração para o nobre sentimento do amor. O amor é tão lindo, que tristeza a solidão!!!
            O rei Sandoval, preocupado, combinou com sua mulher, a rainha Carlene que daria uma festa. Enviou então convites para as princesas dos reinos mais longínquos. Quem sabe não estaria aí a grande chance de Marcolino conhecer o grande amor de sua vida?
            Dona Clodoalda, a faxineira do rei, sabendo da festa, tratou de fazer uma linda roupa para sua filha, Umberlina, a garota mais bela de todo o reino. Seu plano era fingir que sua filha era uma princesa. Desta forma, casaria com o príncipe e seria feliz para sempre.
            Dona Clodoalda, como era muito boa costureira, tratou de fazer o vestido mais belo que já se viu na face da terra. Gastou todas as suas economias no tecido mais lindo, fez lindos arranjos com flores para colocar nos cabelos da filha e comprou o perfume mais suave para que usasse na noite da festa.
            Enfim a grande noite chegou, e Umberlina estava realmente a mais linda da festa. O príncipe Marcolino, ao olhar para ela, não pensou duas vezes: Tinha encontrado o grande amor de sua vida.
            Foi amor a primeira vista. Marcolino gostou tanto de Umberlina e ela dele que resolveram se casar naquela mesma noite. Os convidados ficaram tão felizes com a notícia. Teve gente que até chorou.
            O rei, satisfeitíssimo, chamou o casamenteiro. Pediu também que os pais da moça se apresentassem a fim de conhecer os dois.
            Umberlina estremeceu, mas como não era de mentiras, começou a contar a verdade e a chorar muito. Achava que por ser a filha de uma faxineira, jamais deveria ter se atrevido a comparecer na festa.
            O rei, comovido com a coragem e a sinceridade da moça, pediu que o casamento continuasse, pois para ele o que importava era o amor entre os dois.
            Mais lágrimas rolaram com esse gesto tão bonito do rei. Reis não costumam ser assim tão bondosos, não é verdade?
            Umberlina nem podia acreditar no que estava ouvindo. Sua mãe, ao ouvir as palavras do rei, começou a pedir mil perdões. Mesmo assim o rei deu a ela o título de “dama da corte”, e entendeu que a mãe tinha feito tudo aquilo por amor.
            Daquele dia em diante, Dona Clodoalda começou a morar no castelo. Umberlina casou-se, foi muito feliz e passou a ser conhecida como a “princesa plebéia”.

Quais as Histórias indicadas para cada faixa etária?? - Escola Jeito de Ser

Uma das perguntas mais recorrentes nas oficinas de contação é
"Quais as histórias indicadas para cada faixa etária?".

Fico me perguntando se nos tempos idos os
contadores de causos que animavam os serões de histórias nas fazendas ou nos
povoados tinham essa preocupação e elucubravam a respeito.
Claro que não! A prática não seguia nenhum paradigma ou estabelecia limites para o
repertório contado. Com isso, a criança ouvia, ao lado de adultos, histórias de terror,
de mula sem cabeça e uma das primeiras intenções da arte de contar histórias era
alcançada: a de agregar. Mas os tempos mudaram e, quando digo isso, não quero dizer
que uma época seja melhor ou que esteja mais certa ou errada, não. O olhar era outro.
No Módulo I da Oficina de Contadores de Histórias, a investigação das raízes da
literatura infantil começa a partir do século XVII e, mais especificamente, a partir da
compilação que Charles Perrault fez das histórias tradicionais. Histórias que
culminaram na publicação de Contos da Mamãe Gansa (personagem dos velhos contos
populares franceses que contava historietas para seus filhotes) que incluía, entre
outros, Chapeuzinho Vermelho, As Fadas e a Bela Adormecida no Bosque. No entanto,
ainda não havia a intenção de ser produzida uma literatura específica para as crianças,
mesmo porque elas não eram entendidas como crianças.
No Brasil, surgiram, no final do século XIX, os Contos da Carochinha, que se
desdobraram em variantes extremamente influenciadas pelas amas africanas que as
contavam. Por ser um material que circulava pelas classes menos favorecidas, tinha
uma linguagem simples, que a todos encantava e não era tão importante saber se uma
criança de cinco anos estava compartilhando a mesma história com seu irmão de doze.
Contos que, na maioria das vezes, falavam da busca do autoconhecimento, ritos de
passagem que pegavam carona no fantástico e que ajudaram tantas identidades a se
formarem.
Hoje em dia já não vamos tanto pela intuição, infelizmente. Precisamos ter certeza
absoluta e errar muito pouco, principalmente com nossos filhos. Afinal, a vida anda
corrida demais e já não temos tempo sobrando para arriscarmos ou experimentarmos
e, ao final, não sermos pedagogicamente corretos.
Acho que essa questão de faixa etária é mais mercadológica do que qualquer outra
coisa. É claro que o bom senso conta muito. Não vamos contar os Contos da Morte
Lograda para uma criança de 4 anos, assim como não vamos contar Os Sete
Cabritinhos para um préadolescente.
É preciso dedicar tempo e não buscar ter tudo pronto. Contar histórias é uma arte que
envolve pesquisa, atenção, discernimento, percepção e proximidade. Não dá para o
livro estar lá na estante e você no outro extremo buscando receitas prontas para
facilitar a sua vida.
São poucos os pais que compartilham realmente do prazer de ouvir histórias ao lado
dos filhos. Nós, contadores, sabemos muito bem disso por conta da nossa experiência
em livrarias e centro culturais: os pais abandonam os filhos no canto dos contos e só
reaparecem no final. Em casa é que começa a tarefa que delegamos à escola: a de
fazer de nossos filhos leitores ávidos e ela começa bem cedo com as parlendas e as
cantigas de roda. É o primeiro caminho para tornar sedutor o exercício da leitura e
fazer com que a criança peça mais. Depois, vamos inserindo as fábulas, as narrativas
curtas que envolvem brinquedos e alimentos e, aí sim, começamos a contar as
histórias mais elaboradas: os contos de fada, de encantamento. E, então, quando nos
damos conta, temos à nossa frente um devorador de livros. E ele, sem dúvida, vai se
tornar um adulto muito mais interessante e sensível.
Boa sorte!

A CASA SONOLENTA - AUDREY WOODY


Era uma vez uma casa sonolenta, onde todos viviam dormindo.Nessa casa tinha uma cama, uma cama aconchegante, numa casa sonolenta onde todos viviam dormindo.

Nessa cama tinha uma avó, avó roncando, numa cama aconchegante, numa casa sonolenta onde todos viviam dormindo.

Em cima dessa avó tinha um menino, um menino sonhando, em cima da avó roncando, numa cama aconchegante , numa casa sonolenta onde todos viviam dormindo.

Em cima desse menino tinha um cachorro, um cachorro cochilando, em cima do menino sonhando , em cima da avó roncando, numa cama aconchegante, numa casa sonolenta onde todos viviam dormindo.

Em cima desse cachorro tinha um gato, um gato ressonando, em cima de um cachorro cochilando, em cima de um menino sonhando, em cima de uma avó roncando, numa cama aconchegante, numa casa sonolenta onde todos viviam dormindo.

Em cima desse gato tinha um rato, um rato dormindo, em cima de um gato ressonando, em cima de um cachorro cochilando, em cima de um menino sonhando, em cima de uma avó roncando, numa cama aconchegante, numa casa sonolenta onde todos viviam dormindo.

Em cima desse rato tinha uma pulga...

Será possível? Uma pulga acordada, em cima de um rato dormindo, em cima de um gato ressonando, em cima de um cachorro cochilando, em cima de um menino sonhando,em cima de uma avó , numa cama aconchegante, numa casa sonolenta, onde todos viviam dormindo.

Uma pulga acordada, que picou o rato, que assustou o gato, que arranhou o cachorro, que caiu sobre o menino, que deu um susto na avó , que quebrou a cama, numa casa sonolenta onde ninguém mais estava dormindo.

UM BOM NATAL - Elaine Alves - Educadora Popular

Não se assuste, já estamos vendo propagandas,  correria no comércio, mais um ano que finaliza, mais um Natal que chega... que tal doar um pouquinho do seu melhor, compartilhar o seu amor com alguém?? Que esta história te inspire a ... fazer o bem à alguém.


Na manhã do dia de Natal, o velho Gaspar abriu o jornal e começou a ler. Imaginem o que foi que ele viu na primeira página? Lá, no meio de todas as notícias importantes, estava o seguinte:

"Se você quiser ter um bom Natal, faça um bem para alguém."

O Sr. Gaspar leu e tornou a ler aquilo. Riu-se muito, deu uma palmada na perna e disse: "Que boa idéia!" Levantou-se e foi espiar no forno. "Veja só que beleza!", exclamou ele ao ver dois perus assados. Tirou o maior dos dois, colocou-o numa cesta e cobriu-o com um guardanapo bem branquinho e engomado. Escreveu num cartão:

"Se você quiser ter um bom Natal, faça um bem para alguém."

E colocou-o na cesta. Pegou o chapéu, vestiu o paletó, colocou a cesta no braço e saiu para a rua. Foi andando, andando, até que chegou a uma porta onde se via um enorme sapato pendurado. "Ó! Deve ser aqui mesmo que mora o sapateiro Antônio. Coitado dele, vive sentado o dia inteiro, consertando sapatos!" pensou Gaspar.

Devagarinho e sem barulho, pôs a cesta na porta, bateu palmas e rapidamente continuou o seu caminho, virando na esquina mais próxima, onde desapareceu antes que alguém pudesse vê-lo.

"Que surpresa magnífica! Que peru enorme!" disse o sapateiro lendo o cartão, onde estava escrito:

"Se você quiser ter um bom Natal, faça um bem para alguém."

"Imagine só, eu ganhando um presente destes!"

Ficou por um momento coçando a cabeça. Então disse em voz alta: "Já sei o que vou fazer! Levarei o frango que comprei para o nosso jantar de Natal à pobre viúva Mendes."

Guardou o peru, meteu na cesta o frango que havia custado seu último vintém, pois queria um jantar para os seus filhos no dia do Natal, cobriu-a e saiu, dirigindo-se à pequena casa branca da viúva. Colocou a cesta na escada, bateu na porta, e sumiu em seguida.

A viúva abriu a porta e arregalou os olhos de surpresa, enquanto lia no cartão:

"Se você quiser ter um bom Natal, faça um bem para alguém." Olhando para dentro da cesta, viu o frango assado. "Que belo frango! Quem teria tido a bondade de me dar este presente?" Sorrindo, guardou o frango no armário e disse: "Já sei o que vou fazer! Levarei também uma surpresa para a boa lavadeira." Tirando da mesa um enorme pudim, bem assado e cheiroso, arrumou-o na mesma cesta e levou-o à casa da lavadeira.

Joana estava no quintal, estendendo roupas, e não viu a viúva entrar pela porta, colocar a cesta na mesa e ir-se embora. Quando voltou para dentro de casa, viu a cesta e, muito admirada, leu o cartão:

"Se você quiser ter um bom Natal, faça um bem para alguém."

"Como é estupenda esta idéia! Vamos ver o que há dentro da cesta. Vejam só, é o rei dos pudins! Dá água na boca só de olhar! Ah, já sei o que eu também vou fazer. Assarei um bolo gostoso para os três filhos da D. Maria."

E assim fez, bolo na cesta, cartão pregado no guardanapo, foi até à casa de D.Maria. Entrou sem bater, colocou o bolo ainda quente sobre a mesa, defronte das três crianças e disse:

"Se você quiser ter um bom Natal, faça um bem para alguém."

"Que beleza, um bolo! Mas é para nós, de verdade? Hummm... como está cheiroso! Todo para nós? Muito obrigado" gritaram os três para a senhora que já ia saindo.

O mais velho dos irmãos sugeriu, então, aos menores: "Vamos cortar um pedaço bem grande e lavá-lo ao Joãozinho, o vizinho e grande amigo!"

"Vamos, vamos!" apoiaram os irmãos.

Como Joãozinho ficou alegre com o bolo quando as crianças lhe disseram:

"Se você quiser ter um bom Natal, faça um bem para alguém."

"Muito agradecido pelo bolo gostoso e bom! Também vou passar um dia alegre e feliz! Vou guardar as migalhas para os passarinhos que costumam aparecer na minha janela."

Quando ficou sozinho, Joãozinho pensou: "Eu também gostaria de fazer alguma coisa boa para alguém... JÁ SEI!", exclamou em voz alta, olhando pela janela as flores do jardim. "Aquele velho, simpático, a quem entrego o jornal todos os dias, não tem quintal."

Todo animado, pegou a tesoura e cortou com cuidado uma porção de flores coloridas. Ajeitou-as dentro da cesta, colocou o cartão e saiu todo garboso pela rua. Andou, andou, deu a volta no quarteirão. Colocando a cesta na varanda, tocou a campainha e virou a esquina, bem depressa.

Que surpresa que o Sr. Gaspar teve quando abriu a porta e encontrou sua própria cesta cheia de lindas flores e um cartão que dizia:

"Se você quiser ter um bom Natal, faça um bem para alguém." 

Entrevista com Rita Nasser

Como você virou escritora?
Engraçado... Não virei. Acho que sempre escrevi, desde que aprendi, aos seis anos.
Lembro-me inventando histórias nas brincadeiras da infância. Histórias para as bonecas, o cachorro, as amigas.
Escrevi alguns contos e poesias, mas o que mais gosto mesmo de criar são histórias para os pequenos.



Você prefere escrever ou contar histórias?
Bom, escrever é contar também. Escrever é contar com as letras.
Gosto muito de contar com a voz e com as letras. Mas, sinceramente, prefiro contar escrevendo.
O que um bom contador de histórias precisa saber?
Ele precisa saber "acordar" as histórias que vivem adormecidas, nos livros e na memória.
Todos somos contadores em potencial. Basta querer contar, ler muito e deixar a história florescer.

Quais são seus principais trabalhos, obras?
Eu escrevi muitas histórias de 1994 até 1998. Houve então a primeira edição do livro A MÁGICA DA FLAUTA, Ed. Paulinas, 1998 e depois descobri que queria estudar um pouco a literatura infantil, guardei meus textos porque pensava que queria aprender mais. Continuei escrevendo, sempre que uma ideia me cutucava. Colaborei com algumas revistas para crianças, sites e participei de algumas antologias literárias. Em 2008, ganhei uma menção honrosa com um texto muito especial que fala da morte (QUERO COLO), que ainda não virou livro infantil. No final de 2010 lancei TEM TREM NA LINHA, Ed. Mundo Mirim.

Quando e como você virou contadora de histórias?
(Risos) Não virei, sempre contei. Mas vamos lá:
Em 1990 eu comecei a contar para os pequenos numa escolinha de recreação infantil e percebi que as crianças gostavam de ouvir. Eu contava as histórias dos livros e também aquelas inventadas. Depois li muitos livros de literatura infantil e de teoria. Fiz inúmeros cursos, participei de palestras, seminários. Fui me envolvendo e sei que tenho milhões de coisas para aprender ainda. Hoje ministro cursos e oficinas para futuros contadores de histórias.




As roupas novas do imperador

 
 
Há muitos anos havia um imperador que achava que roupas finas e novas eram tão importantes que nelas gastava todo o seu dinheiro. Não se preocupava com o seu exército, ou em ir ao teatro, ou em caçar na floresta, a não ser que isso representasse uma oportunidade para exibir as suas vestimentas novas. Tinha um fato diferente para cada hora do dia, e em vez de se dizer, em relação ao imperador, “Ele está reunido em conselho”, dizia-se, “Ele está no quarto de vestir”.
A grande cidade onde vivia era muito próspera e visitada diariamente por muitas pessoas. Um dia, contudo, chegaram à cidade dois aldrabões que se diziam tecelões e afirmavam fazer o tecido mais bonito que se podia imaginar. Não só eram as cores e o padrão do tecido invulgarmente bonitos, afirmavam, mas também as roupas com ele feitas tinham a maravilhosa propriedade de ficarem invisíveis aos olhos de quem não fosse competente no seu ofício ou de quem fosse particularmente estúpido.
— Essas roupas devem ser realmente maravilhosas! — pensou o imperador. — Se eu tivesse uma vestimenta assim, poderia saber quem é que nas minhas terras não é competente para a posição que ocupa. Poderia distinguir quem é esperto e quem é estúpido! Tenho de encomendar imediatamente esse tecido para mim!
E deu imenso dinheiro aos dois aldrabões para que começassem a trabalhar. Assim, eles montaram dois teares e fizeram de conta que estavam a trabalhar, mas na realidade não estavam a fazer nada. Disseram que precisavam da seda mais fina e do fio de ouro mais precioso, mas guardaram tudo para eles e continuaram a trabalhar nos teares vazios, até de madrugada.
— Como é que estará o meu tecido? — interrogou-se o imperador.
Contudo, sentiu-se ligeiramente receoso quando se lembrou de que todos os que fossem estúpidos ou incompetentes no seu trabalho não conseguiriam vê-lo; ele achava que, pela sua parte, não precisava de ter medo. Em todo o caso, resolveu mandar alguém ver como é que o trabalho estava a decorrer.
Todos os habitantes da cidade foram informados do maravilhoso poder do tecido e estavam ansiosos por descobrir se os seus vizinhos eram espertos ou estúpidos.
— Vou mandar o meu velho e honrado ministro fazer uma visita aos tecelões — pensou o imperador. — É a pessoa mais adequada para ver como está o tecido, pois é muito esperto e ninguém é melhor do que ele no seu trabalho.
E o velho e honrado ministro lá se dirigiu à sala onde os dois aldrabões estavam sentados a trabalhar nos seus teares vazios.
— Deus me valha! — pensou o velho ministro, arregalando os olhos. — Não consigo ver absolutamente nada! — mas calou-se.
Os dois aldrabões convidaram-no a aproximar-se. O padrão não era muito requintado? — perguntaram eles. E as cores não eram bonitas? À medida que falavam, iam apontando para o tear vazio, e o pobre do velho ministro continuava perplexo, não conseguindo ver nada, pois não havia nada para ver.
— Meu Deus! — pensou ele. — Será que sou estúpido? Nunca tinha pensado nisso. Bom, o que é certo é que ninguém pode ficar a saber disto! Será que não sou competente no meu trabalho? Nunca poderei dizer que não consigo ver o tecido!
— O senhor não diz nada? — perguntou um dos aldrabões, ao mesmo tempo que fingia continuar a tecer.
— Oh, sim! É fabuloso! Uma maravilha! — retorquiu o velho ministro, espreitando através dos óculos. — Que padrão! E as cores! Claro que vou dizer ao imperador que gostei imenso, de verdade!
— Estamos muito contentes por o ouvir dizer isso! — disseram os dois tecelões, e então puseram-se a falar das cores e a descrever o invulgar padrão. O velho ministro escutou com muita atenção, de modo a poder contar tudo, mais tarde, ao imperador, e assim aconteceu.
Os dois aldrabões pediram então mais dinheiro e mais seda e fio de ouro, dizendo que precisavam de mais materiais para a tecelagem. Claro que guardaram tudo para eles e continuaram a tecer nos seus teares tão vazios como anteriormente.
Pouco tempo depois, o imperador enviou outro honrado funcionário. Este olhou, olhou, mas como não havia nada nos teares, também ele não conseguiu ver nada.
— É ou não um belo tecido? — perguntaram ambos os aldrabões e, fazendo de conta que estavam a mostrar-lho, descreveram o belo padrão que, evidentemente, não existia.
— Tenho a certeza, eu não sou estúpido! — pensou o funcionário. — Por isso, devo ser incompetente no meu ofício! Isto é de facto estranho, mas não posso deixar que alguém saiba!
E assim, elogiou o tecido que não conseguia ver e referiu o quanto gostava das lindas cores e do bonito padrão.
— Na realidade, é de um gosto requintado! — confirmou ao imperador.
Todas as pessoas da cidade falavam daquele maravilhoso tecido e o imperador quis vê-lo com os seus próprios olhos enquanto ainda estava no tear. Fez então uma visita aos aldrabões, levando uma selecta comitiva, na qual se incluíam os dois honrados cavalheiros que já antes lá tinham ido. Os dois malandros teciam com toda a energia, apesar de não haver um único fio no tear.
— Não acha soberbo? — perguntaram o ministro e o funcionário. — Vossa Majestade repare só naquele padrão e naquelas cores!
E apontavam para o tear vazio, como se acreditassem que todos os outros conseguiam realmente ver o tecido.
— Meu Deus! — pensou o imperador. — Não consigo ver absolutamente nada! Isto é terrível! Serei estúpido? Não valho nada como imperador? Era a pior coisa que me podia acontecer!
No entanto, em voz alta, apenas disse:
— Oh, sim, é muito bonito! Gosto mesmo muito dele! — e abanou a cabeça em sinal de aprovação, olhando na direcção do tear vazio. Não queria, de modo nenhum, admitir que não conseguia ver absolutamente nada. Toda a comitiva que viera com ele olhou e tornou a olhar, mas não conseguia ver mais do que o ministro e o funcionário tinham visto, ou seja, nada. Contudo, imitaram o imperador e disseram:
— Na realidade, é lindíssimo!
E aconselharam-no a fazer um fato com aquele tecido, para vestir na grande procissão que iria realizar-se em breve. E todos exclamavam, uns a seguir aos outros:
— Soberbo! Requintado! Magnífico!
Ninguém deixou de comentar como o tecido era bonito, e o imperador deu então aos dois aldrabões medalhas para pendurarem na lapela e ordenou-os Cavaleiros do Tear. Os dois astutos aldrabões estiveram a pé toda a noite na véspera da procissão, com dezasseis lâmpadas acesas, e toda a gente podia ver como eles estavam a trabalhar arduamente para conseguirem acabar a tempo as roupas novas do imperador. Fingiram que estavam a tirar o tecido do tear, agitaram a tesoura no ar como se estivessem a cortar e coseram atarefadamente com agulhas sem linha. Por fim, disseram:
— Vejam, as roupas estão prontas!
Chegou então o próprio imperador, com os seus mais distintos cortesãos, e os dois aldrabões levantaram os braços como se estivessem a segurar em alguma coisa.
— Aqui estão as calças! — disseram eles. — E aqui está o casaco! E o manto! E acrescentaram: — É tão leve como uma pena! Chega-se mesmo a pensar que não se traz nada vestido, mas aí é que está a beleza destas roupas!
— Sem dúvida nenhuma! — concordaram todos os cortesãos, apesar de não conseguirem ver nada, pois não havia nada para ver.
— Quer vossa Majestade fazer a fineza de despir as suas roupas? — pediram os aldrabões. — Assim, podemos vestir-lhe a roupa nova ali à frente daquele espelho grande!
E assim, o imperador despiu tudo e os dois aldrabões fingiram que estavam a vestir-lhe a roupa nova que supostamente teriam feito, puxando daqui, puxando dali, endireitando a cauda do manto, enquanto o imperador se virava e pavoneava em frente do espelho.
— Mas que roupas tão bonitas! — exclamaram todos. — Como assentam bem! E que padrão! Que cores! Na realidade, é um fato sumptuoso!
— O pálio sob o qual Vossa Majestade caminhará na procissão, já está lá fora —disse o mestre-de-cerimónias.
— Já estou pronto! — afirmou o imperador. — Assentam-me mesmo bem as roupas!
E mais uma vez deu uma volta em frente do espelho, fingindo que estava a admirar as belas roupas. Os camareiros que iriam segurar na cauda tactearam desajeitadamente o chão como se estivessem a levantá-la e depois fizeram de conta que seguravam nela. Também eles estavam com medo que alguém reparasse que eles não conseguiam ver nada.
E assim caminhou o imperador, em procissão debaixo do majestoso pálio. Todas as pessoas que estavam na rua e à janela exclamavam:
— Oh! Como são maravilhosas as roupas novas do imperador! Que belo manto ele leva sobre o casaco! Como lhe fica bem!
Ninguém queria que pensassem que não conseguiam ver nada, pois isso significaria que ou eram estúpidos ou incompetentes no seu trabalho. Nenhuma outra roupa do imperador tinha alguma vez sido tão gabada como esta.
— Ah! O imperador vai nu! — exclamou uma criança.
— É apenas a voz da inocência! — desculpou-se o pai da criança.
Mas as pessoas começaram a passar palavra umas às outras, acerca do que a criança tinha dito.
— O imperador vai nu! Aquela criança ali afirma que o imperador vai nu!
Por fim, já todas as pessoas gritavam:
— O imperador vai nu!
O imperador sentiu-se embaraçado, pois no fundo pensava que eles tinham razão, mas disse para si próprio:
— Tenho de manter-me firme até ao fim da procissão.
E assim prosseguiu, ainda mais emproado do que antes, e os camareiros continuaram a segurar na cauda que não existia.
 
 
 
Contos de Andersen
Porto, Ed. AMBAR, 2002
(Adaptação)

Coleção Itaú de Livros Infantis



Com o sucesso da coleção de livros infantis no ano passado, a Fundação Itaú Social disponibiliza novos títulos para quem quiser recebê-los em casa. A coleção foi criada pela Fundação com a ideia de ajudar a despertar desde cedo o prazer pela leitura, acreditando que a educação é melhor caminho para a transformação do Brasil. Neste ano são três títulos: Chapeuzinho Amarelo, de Chico Buarque, com ilustrações de Ziraldo; A Festa no Céu, tradução e ilustração de Angela Lago; e Adivinha quanto eu te amo, de Sam McBratney, com ilustrações de Anita Jeram. Para receber a coleção basta apenas se cadastrar no site www.itau.com.br/itaucrianca. Além disso, o site conta ainda com entrevistas com especialistas, como Ziraldo e Angela Lago, e o Almanaque, um espaço com indicações de histórias, links, textos, entrevistas e outras curiosidades.

VII Festival - A Arte de Contar Histórias - de 15 a 23 de Outubro

VII FESTIVAL “A ARTE DE CONTAR HISTÓRIAS”

Além das atividades de narração de histórias, acontecerão oficinas de voz, de introdução à arte de contar histórias, de ilustração e discussão sobre “Contar histórias, arte de quem?”.

Haverá Intérpretes de Libras nas Bibliotecas: Hans Christian Andersen (Tatuapé), Álvares de Azevedo (Vila Maria), Brito Broca (Pirituba), Raul Bopp (Aclimação) e Pe. José de Anchieta (Perus).

O objetivo é promover a tradição oral, a leitura e também a possibilidade dos participantes conhecerem várias formas de narrar histórias com repertório diversificado.

Abertura do festival com Show líteromusical: Colagem de histórias e cantigas
Érika Bordin e Dorotilde Dias, acompanhadas por Deni Domenico e Lucas Brogiolo
Histórias de fadas, de reis, rainhas e princesas, histórias de esperteza, de animais falantes, histórias de seres fantásticos, histórias de busca de autoconhecimento, e mais canções e poesias são alinhavadas pelo fio condutor da água, que pode vir do mar, dos rios e até do regador. O show está associado à exposição de mesmo nome que ficará em cartaz na Biblioteca.
Dia 15 de outubro às 10h
Cia Gato Preto (Triste fim do pequeno Menino Ostra e outras histórias) 7 a 12.
Dia 17 de outubro às 15h 

Deise Tebaldi (Histórias da cultura popular) Livre.
Dia 17 de outubro às 10h30 

Valdeck de Garanhuns
(Mitos e Lendas Brasileiras em Prosa Verso) Livre.
Dia 17 de outubro às 13h30

Balaio de Dois (Pés & Mãos) +5.
Dia 18 de outubro às 10h30

Lili Flor (Histórias Fantásticas de um Baú) Livre.Dia 18 de outubro às 13h30 

Odé Amorim (África de tantos contos e tantos cantos) Livre.
Dia 18 de outubro às 15h 
Cecília Graner (Histórias que vieram da África) Livre.
Dia 20 de outubro às 13h30 

Cia. Dedo de Prosa (Contos para Inglês ver, mas para todo mundo ter!) Livre.
Dia 20 de outubro às 15h

Kelly Guimarães e Henrique dos Anjos
(Causos da Roça e Histórias de Pescador) Livre.
Dia 20 de outubro às 10h30
Giba Pedroza, Zana De Oliveira e Ricardo Würker (O Rei do Era Uma Vez) Livre.
Dia 22 de outubro às 14h 
Os recursos da voz no contar de histórias
Com a fonoaudióloga Viviane Barrichelo
O mini-curso será realizado em dois módulos e inclui no conteúdo o conhecimento do funcionamento da voz, recursos vocais com relação às intenções do texto – pausas, ênfases, tons e nuances, possibilidades de entonação, variações de volume, padrões de articulação, velocidade e ritmo. O trabalho envolve também ensaios interpretativos, voltados para contadores de histórias, professores e interessados.
Carga horária: 8h.
30 vagas. Inscrições diretamente na Biblioteca.
Dias 19 e 21 de outubro às 13h

ATIVIDADES ESPECIAIS DO FESTIVAL
Homenagem ao Dia das Crianças
O  Coral Comunitário do IA-UNESP realiza um concerto com canções da música popular brasileira, além de temas conhecidos de filmes e contação de histórias, em homenagem ao Dia das Crianças.
Dia 8 de outubro às 16h

Oficina de ilustração com panos, retalhos, costura, cola e outras técnicas
Com Ana Guima
Baseada nas ilustrações do livro A Lenda das Três Laranjas, de Bettina Bopp e Ana Guima. Público adulto.
20 vagas.
Dia 15 de outubro às 11h30
Elixir do Amor

Ópera Fantástica: O elixir do amor

Apresentação: Rosana Rios. Contação de histórias: Virginia Montesino.
Músicos: Gustavo Tassi, César Patoulos, Regina Rios, Luís Flávio Fernandes e Michel Souza Chagas Sebastião.
Ópera misturada com contação de histórias encanta o público de todas as idades. O projeto Ópera Fantástica, pensado especialmente para as Bibliotecas Públicas de São Paulo, traz o conhecimento das histórias de algumas grandes óperas. A história escolhida para esta apresentação foi “O elixir do amor”, de Gaetano Donizetti. Livre. 75 min.

Dia 15 de outubro às 16h

Oficina: Narração de História o caminho da escuta

Coord. Simone Grande
Esta oficina pretende explorar os recursos internos e externos para compor a figura do contador de histórias, através de vivências práticas e leituras de texto onde a escuta de si e do outro será o tema principal. Público adulto.
Vagas limitadas.

Dia 19 de outubro das 14h às 18h
Oficina: Os recursos da voz no contar histórias
Com a fonoaudióloga Viviane Barrichelo
Será uma oficina de dois dias que abordará o bom uso da voz durante uma narração de histórias. Público adulto.
20 vagas.

Dias 19 e 21 de outubro das 13 às 17h
Acampadentro na Hans
Os visitantes passarão uma noite muito agradável dentro da Biblioteca. Haverá teatro de fantoches (promovido pela Diretoria de Estudos e Pesquisas da Fundação PROCON), contação de histórias entre pais e filhos e intervenções sobre contos de fadas com os arteeducadores do PIÁ.

Dia 21 de outubro às 20h


O rei do Era uma vez

Com Giba Pedroza, Ricardo Würker e Zana de Oliveira.
Música e contação de histórias integradas em um show envolvente.
Dia 22 de outubro às 14h
Contar histórias: arte de quem?
Mediação: Giba Pedroza
Mesa de discussão com Luiz Valcazaras, que abordará “A oralidade como instrumentalização do ator”, Alberto Ikeda com “O contador de raiz” e Giuliano Tierno sobre Contação de Histórias  parar para pensar, pensar mais devagar e demorarse no saber específico do ofício.
Dia 22 de outubro às 15h
Roda de Histórias
Com alunos do Curso Básico de Formação para Contadores de Histórias, da Biblioteca Hans Christian Andersen

Dia 22 de outubro às 16h

terça-feira, 11 de outubro de 2011

É proibido - Por Pablo Neruda

... Difícil lição:

É proibido chorar sem aprender,
Levantar-se um dia sem saber o que fazer
Ter medo de suas lembranças.

É proibido não rir dos problemas
Não lutar pelo que se quer,
Abandonar tudo por medo,

Não transformar sonhos em realidade.
É proibido não demonstrar amor
Fazer com que alguém pague por tuas dúvidas e mau-humor.
É proibido deixar os amigos

Não tentar compreender o que viveram juntos
Chamá-los somente quando necessita deles.
É proibido não ser você mesmo diante das pessoas,
Fingir que elas não te importam,

Ser gentil só para que se lembrem de você,
Esquecer aqueles que gostam de você.
É proibido não fazer as coisas por si mesmo,
Não crer em Deus e fazer seu destino,

Ter medo da vida e de seus compromissos,
Não viver cada dia como se fosse um último suspiro.
É proibido sentir saudades de alguém sem se alegrar,

Esquecer seus olhos, seu sorriso, só porque seus caminhos se
desencontraram,
Esquecer seu passado e pagá-lo com seu presente.
É proibido não tentar compreender as pessoas,
Pensar que as vidas deles valem mais que a sua,

Não saber que cada um tem seu caminho e sua sorte.
É proibido não criar sua história,
Deixar de dar graças a Deus por sua vida,

Não ter um momento para quem necessita de você,
Não compreender que o que a vida te dá, também te tira.
É proibido não buscar a felicidade,

Não viver sua vida com uma atitude positiva,
Não pensar que podemos ser melhores,
Não sentir que sem você este mundo não seria igual.

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Lenda do Tsuru - Por Maria Rosa: Pesquisadora da Cultura Japonesa desde 1990

Tsuru (鶴) "A lenda"
 
A Magia:
 
Os tsurus (no ocidente são conhecidos como cegonha ou grou) são aves grandes, de cores contrastantes, plumagem clara chegando ao branco com extremos de fascinante degradê vermelho, e dotado de inigualável encanto. Beleza essa considerada sagrada pelos japoneses que acreditam que o pássaro representa a vitalidade da juventude.
Na cultura asiática, são tidos como os pássaros mais velhos do planeta, com expectativa de vida de cerca de mil anos.
Eram os pássaros companheiro dos eremitas que faziam meditação no alto das montanhas. Tidos como Eremitas Místicos, supunham ter poderes sobrenaturais que retardava o envelhecimento. Ao longo dos tempos - por ter sido companheiros desses eremitas - creditaram aos tsurus essa mística de serem um talismã poderoso, uma ave com ações sobrenaturais capazes de retardar o processo de envelhecimento. Assim, o pássaro ganhou o título "Pássaro da longevidade".
A crença da juventude perdura até os dias atuais na Ásia, onde os tsurus simbolizam a mocidade eterna e a felicidade plena.
 
 
A Crença:
 
A arte do origami (dobrar papel) se inspirou nessa ave para criar uma de suas mais conhecidas formas, tanto que muitos também consideram o tsuru como o símbolo dessa arte japonesa. Até algum tempo atrás era comum encontrar no Japão pedaços de barbantes amarrados com vários desses tsurus de papel, que eram pendurados no teto para distrair os bebês ou deixados nos templos para pedir proteção. Nesse país, acredita-se que dobrar 1.000 origamis de tsurus com a mente direcionada para uma necessidade ou desejo, garante seu desejo realizado.
Aos enfermos, papéis para fazer origamis de tsurus são oferecidos pelos visitantes, amigos, parentes, etc. A lenda diz que quanto mais origamis de tsurus o adoentado fizer, mais rápida será sua recuperação.
 
 







Uma lenda sobre Tsuru: "Mil penas de Tsuru"
 
Conta a lenda que um camponês muito pobre vivia em uma cabana humilde e seu único alimento eram algumas verduras que colhia de sua terra cansada.

Um dia, enquanto tentava plantar em sua terra mais ao longe por achar menos árida, encontrou uma cegonha com a asa quebrada. A ave não podia voar em busca de alimento, estava fraca e beirando a morte.O camponês sentindo compaixão por tamanho sofrimento, rapidamente tomou a cegonha em seus braços e a levou para sua cabana. Ele cuidou de sua asinha e pacientemente colocou em seu bico algumas sementes. Com o passar dos dias, a cegonha melhorou. A bondade do camponês a livrou da morte e quando ela pôde voar o camponês a libertou.
Alguns dias depois, uma mulher adorável apareceu em sua cabana e pediu que lhe desse abrigo por uma noite. O camponês, por ser uma pessoa de bom coração, não negaria esta caridade à pessoa alguma. Porém, a beleza daquela mulher fez com que ele acreditasse que deixá-la dormir em sua humilde cabana era realmente uma honra.
 
Após aquela noite os dois se apaixonaram e se casaram.

A noiva era delicada, atenciosa e tinha tanta disposição para o trabalho quanto era bonita, e assim eles viviam muito felizes. Mas para o camponês, que tinha muita dificuldade quando vivia sozinho, ficou muito mais difícil ainda cobrir as despesas que sua nova vida de casado lhe trazia.

Preocupada com esta situação, a esposa disse ao marido que produziria um tecido especial (tecer era um trabalho comum para as mulheres nessa época). Ele poderia vendê-lo para ganhar dinheiro, contudo, ela alertou que precisaria fazer seu trabalho em segredo, e que ninguém, nem mesmo ele, seu marido, poderia vê-la tecer.
O homem construiu uma pequena cabana nos fundos de sua casa e ela trabalhou, trancada, durante três dias. O marido ouvia o som do tear batendo, e a curiosidade e a saudade que tinha de sua bela mulher fazia com que estes dias demorassem muito para passar.

Quando o som da tecelagem parou, ela saiu com um lindo tecido entre os braços, de textura delicada, brilhante e com desenhos exóticos. A tecelã lhe deu o nome de “mil penas de Tsuru”.

Ele levou o tecido para a cidade. Os comerciantes ficaram surpreendidos e lutaram entre si para consegui-lo. O vendedor pagou com muitas moedas de ouro por ele. O pobre homem não podia acreditar que tão de repente a sorte começasse a lhe sorrir.

Desde então, a esposa passou a trabalhar no valioso tecido outras vezes. O casal podia, com o fruto da venda, viver em conforto. A mulher, porém, tornava-se dia após dia mais magra.
Um dia, ela disse que não poderia tecer por um bom tempo. A mulher estava muito cansada. Seus ossos lhe doíam e a fraqueza quase a impedia de ficar em .

O camponês a amava muito e acreditava naquilo que ela dizia, contudo, tinha experimentado a cobiça. Ele havia contraído algumas dívidas na cidade e pediu para que ela tecesse somente por mais uma vez. No princípio ela não aceitou, mas perante a insistência do marido, cedeu e começou a tecer novamente.

Desta vez ela não saiu no terceiro dia, como era de costume. E o homem ficou preocupado. Mais três dias se passaram sem que ela aparecesse, e isso começou a deixar o marido desesperado.

No sétimo dia, sem saber mais o que fazer, ele quebrou sua promessa, espiando o serviço de tecelagem que ela fazia.

Para a sua surpresa, não era sua mulher que estava tecendo. Arqueada sobre o tear encontrava-se uma cegonha, muito parecida com aquela que o camponês havia curado.

O homem mal pôde dormir à noite, pensando o que teria acontecido com a mulher que amava. Amaldiçoava-se por ter sido insaciável e praticamente ter obrigado a sua querida esposa a tecer mais uma vez.

Na manhã seguinte, a porta da cabaninha se abriu e o camponês com o coração aos saltos fixou seus olhos na porta, esperançoso em ver sua esposa sair dela com vida.

A mulher saiu da cabana com profundas olheiras, trazendo o último tecido nas mãos trêmulas. Entregou-o para o marido e disse: _Agora preciso voltar, você viu minha verdadeira forma, e sendo assim, eu não posso mais ficar com você!

Depois de dizer estas palavras, transformou-se em sua verdadeira forma, uma cegonha, alçando vôo com lindo rastro de cintilante, e deixando o camponês em eterna lágrimas.
 
 
A Homenagem:
 
Hiroshima e Nagasaki são memórias vivas no Japão. Todo ano, no dia 06 de agosto, as vítimas da tragédia da “Bomba atômica” são homenageadas pela população japonesa.
Nesta data, inúmeros tsurus são colocados em Memoriais erigidos em homenagem aos que morreram na tragédia.
 
 
 
 
 
 
Para os japoneses, depositar tsurus nesses memoriais representa votos de paz ao mundo, e uma manifestação pacifica no intento de chamar a atenção aos povos do mundo inteiro para que nunca se esqueçam do mal que a “Bomba Atômica ou uma Guerra nuclear e armas nucleares” causou e pode causar a uma nação, e é justamente nesse dia que eles comemoram “O Dia da Paz”. Em Nagasaki o dia 09 de agosto é repetidamente homenageado em seus memorias, justamente porque a 2ª bomba nuclear foi jogada nesta Cidade três dias após a tragédia de Hiroshima. 
 
 
Em memória de Sadako Sasaki:
 
Sobre dobrar os mil tsurus de origami e ter seu desejo realizado, a lenda foi reforçada a partir de uma das mais belas histórias de esperança e luta pela vida que conhecemos.
No dia 6 de agosto de 1945, ocorreu um dos mais trágicos eventos da história da humanidade: os Estados Unidos detonaram sobre a cidade de Hiroshima, no Japão, a primeira bomba atômica da 2ª Guerra Mundial! Três dias depois seria a vez da cidade japonesa de Nagasaki  sofrer com um ataque nuclear.
A bomba caiu a pouco mais de um quilômetro da casa da menina Sadako Sasaki, que na época tinha dois anos. A mãe de Sasaki conseguiu salvá-la da explosão, no entanto, durante a fuga, as duas tomaram da chuva radioativa que caiu após o ataque.
Sasaki viveu normalmente até os 12 anos de idade, quando descobriu que estava com leucemia (câncer no sangue devido a radiação nuclear que foi exposta). Em tratamento no hospital ela recebeu a visita de uma amiga que lhe contou a lenda dos mil tsurus de papel. Logo Sasaki começou a fazer as dobraduras, mentalizando sempre a sua cura, para que ao final do trabalho ela saísse do hospital livre da leucemia.
 
 
Sasaki, no entanto, não teve forças para completar os mil pássaros de papel que pretendia, tendo feito 964 tsurus até o dia 25 de outubro de 1955, quando veio a falecer. Seus colegas de classe completaram os tsurus de papel que faltavam a tempo para seu enterro.
A notícia do esforço de Sasaki logo se espalhou pelo Japão e pelo mundoEstudantes de mais de 3.000 Escolas do Japão e de 9 outros países  iniciaram uma campanha para a construção de um monumento em Hiroshima em sua memória e das outras milhares de crianças que morreram, ficaram feridas ou estavam doentes em decorrência da bomba
. O apelo popular foi atendido e em 05 de maio de 1958 foi inaugurado em Hiroshima, no Parque da Paz, o Monumento da Paz das Crianças com a Estátua da menina Sasaki erguendo um origami de tsuru.
A história de Sadako Sasaki é considerada como um dos símbolos da luta pelo fim das armas nucleares, e a vontade de viver da menina japonesa que mesmo doente se pôs a fazer mil tsurus de papel são vistas como um símbolo da paz, tanto que todos os anos, no dia 6 de agosto (no qual se comemora o Dia da Paz) milhares de pessoas enviam tsurus ao Monumento da Paz das Crianças e, visitam todos os memoriais erigidos com esse propósito em “Hiroshima e Nagazaki” depositando milhares de Tsurus, para mostrar que a esperança e o desejo de dias melhores ainda existem em nosso planeta.